O que aprendi com a leitura de A Biblioteca da Meia-Noite

A Biblioteca da Meia-Noite começa apresentando Nora Seed, uma mulher de 35 anos que vive tomada por arrependimentos. Apesar de ter muitos talentos, ela sente que falhou em tudo o que tentou ser ou construir. A vida dela é marcada por uma rotina cinza, depressão, ansiedade e pela sensação constante de ter decepcionado as pessoas ao seu redor.
Nora passa os dias remoendo decisões do passado e imaginando como sua vida poderia ter sido melhor se tivesse escolhido diferente. Aos poucos, ela vai perdendo o sentido de utilidade: é demitida do trabalho, perde pequenas responsabilidades que lhe davam propósito e, por fim, sofre uma perda emocional decisiva.
Sentindo que não faz mais falta no mundo e que sua vida não tem valor, Nora chega a um ponto de total esgotamento emocional e decide tirar a própria vida. É exatamente nesse momento, quando ela está entre a vida e a morte, que a história dá sua virada e a Biblioteca da Meia-Noite surge.
Assim como a Nora Seed, eu já vivi presa aos “e se…”.
“E se eu tivesse escolhido diferente?”
“E se eu tivesse insistido mais?”
“E se eu não tivesse desistido?”
“E se eu tivesse sido outra pessoa?”
Existe um momento em que a gente para de viver e passa a apenas existir. A rotina segue, os dias passam, mas a nossa presença está sempre em outro lugar: geralmente no passado ou em uma versão idealizada de futuro que nunca chega. Eu já estive exatamente aí.
Por isso que, para mim, essa é um livro sobre presença.
Sobre o perigo de passar a vida inteira olhando para as possibilidades que não escolhemos e esquecer de viver a única vida que realmente temos. Sobre a armadilha silenciosa de achar que a felicidade está sempre na próxima versão de nós mesmos. Na próxima escolha, no próximo emprego, no próximo relacionamento, no próximo corpo dos sonhos… E, enquanto isso, a vida real vai passando. O tempo também.
O livro me fez pensar muito naquela frase famosa, atribuída a Schopenhauer: a ânsia de ter e o tédio de possuir. A gente deseja, idealiza, projeta. Quando conquista, enjoa. Quando perde, sofre. E nesse vai e vem, raramente contemplamos o que já temos. Como o livro diz, às vezes a gente não precisa entender o sentido da vida, só precisamos vivê-la.
Porque é vivendo que a gente se cura de coisas que nem sabia que estavam machucando. É vivendo que a gente amadurece, descobre gostos, limites, desejos reais (e não desejos emprestados de outras pessoas ou da internet). Vivendo com autenticidade, nos colocamos em contextos também autênticos. Se você verdadeiramente gosta de correr, transformar a corrida em um hábito vai te colocar em contato com pessoas que tenham esse mesmo hobby, portanto, as conexões que você fará também serão autênticas. Mas se você viver projetando desejos falsos, suas conexões também serão falsas, daí surgirá o sentimento de não pertencimento e desassociação com a própria vida.
Existe também uma tendência muito humana de só dar valor quando perde. A gente tem uma casa, saúde, comida, mobilidade, rotina, e tudo isso vira uma paisagem que mal conseguimos contemplar, porque estamos o tempo todo correndo de um lado para o outro, ou ocupados revisitando todos os nossos arrependimentos do passado. Até o dia em que essas coisas faltam: a saúde, a casa, o emprego, o relacionamento, as pessoas… O ordinário só vira extraordinário quando some.
Perdas ensinam, sim. Mas não dá para perder a vida inteira achando que depois haverá outra chance. Nós não somos personagens de uma fantasia. Não somos a Nora Seed. A gente não pode desistir da vida esperando uma biblioteca mágica onde vamos testar mil versões da nossa vida e depois voltar para a original com tudo resolvido. A vida não funciona assim. A vida é agora.
E isso não significa viver em euforia constante ou num otimismo forçado. A vida tem dias difíceis, rotinas chatas, trabalhos cansativos, ônibus lotados. Reclamar faz parte. O problema é se viciar em reclamar e viver com a sensação permanente de que falta algo. Quando a gente começa a deslocar a energia do “o que me falta” para o “o que eu já tenho”, algo muda. Não é papo místico, nem de “co-criar realidade”. É prático. É psicológico. É humano. A vida começa a ganhar textura de novo. Sentimento de abundância realmente atrai ainda mais abundância. A vida começar a acontecer de um jeito que te anima, as engrenagens voltam a girar!
Aos poucos, você deixa de viver como quem assiste à própria existência de fora e passa a viver como protagonista. Você começa a se empolgar com o próximo dia. Como se estivesse dentro de uma série e essa série fosse a sua própria vida. Você começa a querer desempenhar com excelência os papéis que a vida te dá: a melhor tutora para o seu cachorrinho, a melhor irmã para as suas irmãs, a melhor filha para os seus pais, a melhor funcionária para o seu chefe, a melhor namorada para o seu namorado, e por aí vai. Se sentir útil te enche de vivacidade e você começa a enxergar a vida por uma perspectiva diferente, quase mágica. Tudo volta a ter cor.
O livro também me fez pensar muito sobre potencial. A gente romantiza demais o potencial. Mas potencial sem vida não serve para nada. Não adianta ter mil possibilidades se você não tem saúde, presença e disposição para viver nenhuma delas.
Se você tem vida, você tem tudo.
Se você tem saúde, você tem tudo.
E isso muda completamente a forma como a gente enxerga futuro. Porque, mesmo sem saber o que vai acontecer, a gente sabe que pequenas escolhas feitas todos os dias constroem algo sólido. Ler um pouco. Cuidar do corpo. Cultivar boas relações. Ser útil no que está ao nosso alcance. Assim como hábitos ruins também nos levarão para versões futuras que não nos orgulharemos.
Abrir-se para a vida não é ser irresponsável. Não é “deixar a vida me levar”. É fazer a sua parte com presença e deixar o que não depende de você, te surpreender. Talvez essa seja a maior mensagem do livro para mim: a vida não precisa ser perfeita para valer a pena. Ela só precisa ser sua. Se tá na sua mão, só depende de você.
Assim como a personagem Nora Seed termina a história preferindo uma vida imperfeita (mas real), a uma vida perfeita que não lhe pertence, nós também precisamos parar de idealizar versões baseadas em nossos arrependimentos e “e ses”, para de fato começarmos a viver a vida que nos pertence e que podemos controlar. Com perdas, lutos, frustrações… mas com vida.
Eu não sou analista de literatura. Eu sou uma entusiasta. Gosto de ler livros e observar como eles impactam a minha vida. A Biblioteca da Meia-Noite conseguiu traduzir algo que eu já sentia.
Assim como a Nora, eu já estive no fundo do poço.
E quando você está no fundo do poço, não tem para onde cair, só para onde olhar: para cima. Depois que você sai de lá, você enxerga a vida diferente. Até o fim de ciclos vem com entusiasmo pelo próximo episódio. Até os desafios passam a se tornar “que habilidade estou desenvolvendo aqui?” “para o que essa habilidade será útil no futuro?”
Não é um otimismo doentio.
É sofrer o luto do que precisa ser sofrido, mas sem a sensação de “acabou”. E sim com as perguntas:
“Ok. E agora… qual é o próximo capítulo? O que a vida espera de mim?”